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Um misto de advogado e especialista em tecnologia da informação, com toques de Sherlock Holmes - esse é o perfil do perito digital, a mais nova categoria profissional em ascensão no mercado brasileiro de TIC. Diferente do perito mais tradicional, que identifica produtos piratas nos computadores dos usuários, o cyber-perito, capacitado para fazer análise e captação das provas eletrônicas, tem hoje demanda crescente em função do aumento dos crimes digitais. Não é pouca coisa.
Dados divulgados pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil mostram que o
número de incidentes de segurança motivados por falhas e vulnerabilidades de
software a ataques externos, vírus etc., passou de 3,1 mil em 1999 para 52,6
em 2004 .
"O espectro de atividades ilícitas, no entanto, é muito mais amplo e inclui
um número crescente de fraudes financeiras, de telecomunicações, sabotagem,
espionagem para roubo de propriedade intelectual, pornografia infantil,
apologia de atividades racistas, ameaças de seqüestros de executivos por
e-mail, entre outras", enumera Ricardo Theil, diretor-presidente do IPDI
(Instituto de Peritos em Tecnologias Digitais e Telecomunicações),
representante no país da ISSA - Information System Security Association,
sediada em Oak Creek, Wisconsin (EUA).
A empresa atua no Brasil com uma equipe de oito profissionais, e uma média
de 100 contratos anuais de combate a esse tipo de delinqüência. "A demanda
empresarial é crescente e os preços dos contratos estão hoje numa faixa de
10 mil reais", comenta o executivo.
No Brasil, o número de peritos digitais não ultrapassa mil profissionais,
indica Theil. Mas as perspectivas são boas para quem quer ingressar na
profissão. Há hoje uma pressão muito forte para as empresas adotarem
rapidamente providências contra ações ilícitas. "Antes, uma decisão jurídica
nesse tipo de processo levava de quatro a seis meses. Hoje, com a ajuda da
perícia digital, os processos podem ser concluídos em menos de 45 dias",
afirma. Isso tem valorizado o trabalho do perito digital.
Embora predominem os homens na função, numa faixa de idade de 30 anos, há
muitas mulheres na profissão atualmente, e os salários giram na faixa de 8
mil reais a 10 mil reais mensais. "É uma profissão bem remunerada, idêntica
a de um bom auditor", revela Theil. Mas essa não é um trabalho para
diletantes.
A perícia computacional é um processo que passa pela coleta, recuperação,
análise e correlacionamento de dados visando reconstruir ações e cenários,
estabelecer causa e efeito, autoria, local e testemunhas, que, depois se
transformarão num laudo e ação judicial. "Trata-se de uma profissão que
exige cada vez mais conhecimentos multidisciplinares, com formação técnica e
legal", diz Patrícia Peck, advogada especialista em direito digital.
Até bem muito pouco, os peritos digitais eram uma categoria de autodidatas
com experiência relativamente alta em sistemas de computação. Mas existe
hoje uma associação cada vez maior com o direito. "Nós temos uma parceria
com a OAB para desenvolver treinamentos específicos para advogados,
prepará-los a lidar melhor com crimes relacionados à tecnologia", conta
Fábio Ramos, diretor da Axur Information Security, representante da IISFA -
International Information Systems Forensics Association, entidade que atende
a grandes corporações nacionais e internacionais envolvidas com problemas de
segurança de informação.
Os cursos de formação profissional, por isso mesmo, proliferam. A empresa
Batori Software & Security realizou em meados de abril um curso sobre
perícia forense aplicada à informática, em São Paulo; a Axur organiza este
mês, em Natal (RN), um curso sobre Forense Computacional para Advogados, e a
Módulo está lançando um módulo de treinamento sobre segurança de informação
para investigação de crimes digitais. Isso para ficar em apenas três
exemplos.
De olho na movimentação do mercado, cresce também o interesse das
universidades sobre a análise forense computacional. Várias delas já dispõem
de cursos de extensão em segurança da informação e segurança de redes, ou
programaram palestras pontuais.
A FIAP e a Universidade Morumbi Anhembi, por exemplo, têm cursos de
pós-graduação em gestão de segurança da informação, destinados a auditores
de sistemas, analistas e consultores, programados para o próximo semestre.
Para quem busca os serviços dos peritos digitais, o mundo acadêmico se torna
um caminho natural. A Unicamp, inclusive, criou um centro de segurança de
informação, formado por analistas de suporte técnico do Centro de
Computação, cuja missão é registrar e acompanhar incidentes de segurança,
disseminar informações sobre ações preventivas relativas à segurança dos
recursos computacionais e apoiar as unidades da instituição de ensino nas
questões relacionadas à segurança.
O grande valor da perícia forense com foco em tecnologia, baseada em
especialização jurídica e computacional, está na garantia de validade das
evidências coletadas ao longo do processo frente à Justiça. É conhecido o
caso do HSBC, que processou um funcionário por uso indevido do correio
eletrônico, perdeu em primeira instância e teve de readmitir o empregado
(mais tarde, o banco ganhou a causa no Supremo Tribunal Federal).
"As questões relacionadas com a segurança da informação e monitoramento
esbarram no aspecto da proteção à privacidade. Portanto, é fundamental que o
perito digital esteja autorizado a exercer suas tarefas", diz Patricia Peck,
autora do livro "Direito Digital".
Uma das formas de garantir a validade legal das evidências coletadas por um
perito é a assinatura de um acordo entre as partes envolvidas - no caso
empresas e seus funcionários - que reze sobre os direitos e deveres na
utilização das ferramentas tecnológicas colocadas à disposição para a
realização do trabalho. Só assim as companhias terão a certeza de poder
recorrer à Justiça par ter seu patrimônio preservado e ou ressarcido.
De Brasília vem o exemplo
O perito digital ganhou status e prestígio em todo o País com a
intensificação do combate à criminalidade pelo Departamento de Polícia
Federal. Em 1995, eram apenas dois peritos no departamento. Atualmente eles
são mais de 50, outros 30 devem se formar ao longo do ano e há previsão de
mais 320 vagas em 2006 e 106 em 2007.
"A perícia digital cresceu com o grande volume de infrações na área de
informática, nos últimos anos", conta Paulo Quintilhiano, chefe do serviço
de perícia em informática do Instituto de Criminalística da PF, em Brasília.
Segundo Quintilhiano, quase 800 laudos foram realizados apenas nos dois
últimos anos. Alguns casos ficaram bastante famosos e ganharam as manchetes
de jornais, revistas e emissoras de TV, como a Operação Anaconda, iniciada
em 2002, que terminou com o desmantelamento de uma organização criminosa da
qual faziam partes juízes, advogados e delegados de polícia.
Outras ações tiveram como foco crimes de exploração de sexo na internet, ou
até mesmo o desbaratamento de quadrilhas especializadas na prática de crimes
pela web. Numa dessas operações, batizada de Cavalo de Tróia, a PF utilizou
o trabalho da perícia de informática para investigar um grupo de hackers que
enviava e-mails com um trojan para roubar dados bancários e senhas de acesso
dos correntistas. "Mais de 100 pessoas foram presas por desvio de cerca de
180 milhões de reais", conta o policial.
Os concursos da PF para preenchimento dos cargos de peritos digitais são
disputadíssimos. Em 2004, foram 10 mil candidatos para 40 vagas. O cargo
exige curso superior em ciência da computação e os salários, iniciais, estão
em torno de 8,5 mil reais. "Mas há outras vantagens, como aposentadoria
integral após 30 anos de serviços e promoções", indica Quintilhiano, goiano
de 43 anos, 7 dos quais atuando como perito da PF.
Durante mais de um ano de curso, os alunos recebem instruções normais dadas
a um policial (noções de tiro, ações defensivas e ofensivas) e têm aulas
específicas de informática e sobre aspectos legais das investigações. "É
bastante desejável que o perito tenha conhecimentos em Direito, pois as
informações e a privacidade são protegidas por lei e para quebrar o sigilo é
preciso cumprir certas normas e obter ordem judicial", detalha ele, que é
formado em ciência da computação e tem doutorado em Direito.
Incidentes de segurança
Ano Total de incidentes
1999 3107
2000 5997
2001 12301
2002 25092
2003 54607
2004 52584
Fonte: NBSO/Brazilian CERT (NIC BR Security Office/Brazilian
Computer Emergence Response Team), mantido pelo Comitê Gestor da
Internet no Brasil
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