Pesquisas indicam que a maioria das companhias - se não todas elas - estão
preocupadas com a segurança das informações críticas para o seu negócio. E, se
ainda não têm, pretendem implantar sistemas de controle de e-mail de seus
funcionários.
Números da PricewaterhouseCoopers (PwC), por exemplo, indicam que cerca de
30% das grandes empresas em todo o mundo já possuem algum processo de
monitoramento do fluxo de informações implantado. "É um tema ao qual as empresas
vêm dedicando atenção", afirma Antonio Gesteira, gerente-executivo de tecnologia
e segurança da informação da PwC. O especialista diz que os 70% restantes buscam
implantar ou aprimorar as ferramentas de segurança atualmente em operação. Ou
seja, todas elas pensam no assunto.
Outro estudo, este da empresa de segurança Proofpoint, aponta que 63% das
companhias nos Estados Unidos querem monitorar os e-mails de seus empregados.
Segundo o levantamento, 36,1% delas já monitoram e-mails atualmente. Outro dado
revelado pela pesquisa é que 35% das companhias investigaram suspeitas de
vazamento de informações nos últimos 12 meses.
Se por um lado os números evidenciam a necessidade de preservar as informações
vitais para a empresa, por outro eles criam uma discussão dentro das
organizações. De quem é a responsabilidade pelos processos ligados a essa gestão
de dados? Na hora de definir, começa o jogo de empurra.
Os especialistas, por sua vez, são enfáticos ao dizer que a responsabilidade não
cabe apenas ao departamento de TI, mas também às áreas de recursos humanos,
jurídica e de segurança da informação, entre outras. A orientação e
conscientização dos funcionários é o primeiro passo, de acordo com a advogada
Thaís Cordeiro, do escritório Trevisioli Advogados Associados. "É fundamental
orientar os funcionários no sentido de que e-mail é meio de prova", explica
Thaís.
"Todo funcionário admitido no Trevisioli assina um documento em que toma
conhecimento de que os computadores da empresa são de uso corporativo e
instrumento monitorado", conta Paulo Morita, responsável pela área de TI do
escritório de advocacia. Segundo Morita, todos os e-mails que entram e saem da
empresa são monitorados. "A leitura dos e-mails é aleatória. Feita em média uma
vez ao dia por um funcionário ligado à área de tecnologia", diz o executivo.
A Fecomercio (Federação do Comércio do Estado de São Paulo) prepara uma cartilha
sobre a questão do gerenciamento do fluxo de informações dentro das empresas
para seus associados. O advogado Renato Opice Blum, presidente do conselho de
comércio eletrônico da entidade, conta que as sugestões incluem que o
monitoramento seja feito com base em um regulamento de segurança da informação,
e este deve estar atrelado aos contratos de trabalho dos funcionários. "O
regulamento deve determinar como esse controle será feito, quem cuidará dele, se
haverá software automático por trás e se o conteúdo ficará arquivado", aconselha
Opice Blum.
A questão da ética e invasão de privacidade é página virada para Opice Blum.
Apesar das dicas, o advogado defende que o monitoramento pode ser feito
independentemente de regulamentações, uma vez que a empresa responde pelos atos
tomados por seus funcionários, e corre o risco de responder por suas ações.
Tarefa multidisciplinar
Com regulamentação ou sem ela, a operacionalização do gerenciamento do fluxo de
informações nas corporações é uma tarefa multidisciplinar. De acordo com
Gesteira, da PwC, o processo deve envolver as equipes de segurança e tecnologia
da informação e os departamentos de recursos humanos e jurídico, entre outros.
"A formalização do processo, da infra-estrutura e da maneira como as exceções ou
incidentes de segurança serão tratados é imprescindível", destaca o
especialista, que dá o alerta para as organizações. "Não queira adotar medidas
paliativas ou amadoras porque o prejuízo pode ser muito maior. A empresa precisa
estar preparada para responder a qualquer incidente."
Opice Blum sugere que a atividade de monitoramento seja conduzida por um
profissional do departamento jurídico, mas admite que é aconselhável que esse
profissional detenha também conhecimentos de tecnologia da informação. E se a
regulamentação deve ser atrelada ao contrato de trabalho do profissional, o RH
entra em ação.
O ideal é que não exista jogo de empurra. Para Alberto Evandro Fávera, CSO do
banco Santander Banespa, nada mudou na relação entre esses departamentos. "A
relação entre os departamentos é a mesma. A diferença é que hoje eles estão
municiados com ferramentas tecnológicas", explica. Para o executivo, o e-mail é
uma ferramenta utilizada hoje para os mais diversos tipos de comunicação. Desde
chamar o colega lá de cima para tomar um café até mandar um contrato para o
cliente. "Não controlar essa ferramenta é um risco muito grande", alerta.
De acordo com o CSO, o Santander adota uma política de monitoramento de e-mails
de seus funcionários. Para ele, o primeiro passo é "declarar formalmente aos
funcionários como devem usar as ferramentas concedidas a eles pela empresa. A
política deve considerar um padrão de comportamento baseado em um código de
ética", diz.
Uma vez estabelecidas as normas, os desvios devem ser controlados. Fávero revela
que o Santander conta com softwares poderosos de monitoração. As soluções são
bem calibradas e configuradas de forma a filtrar e-mails de conteúdo suspeito.
Se há quem defenda que o uso dos computadores corporativos deva restringir-se
para fins profissionais, Fávero diz que a privacidade dos funcionários é sim
considerada pelo banco na hora de monitorar as mensagens eletrônicas. O CSO diz
que o uso esporádico e responsável para fins pessoais é permitido. "Seria uma
perda de produtividade impedir o uso do e-mail e do telefone para fins
pessoais", afirma Fávero. "O alto padrão de governança corporativa no Santander
visa o bem-estar dos bons", explica.
Fávero conta que os profissionais da instituição trocam cerca de 2 milhões de
e-mails por dia útil. "Uma quantidade insignificante dessas mensagens é filtrada
pela ferramenta de segurança", conta, atribuindo o baixo número à boa
configuração do aplicativo. "Ler todos os e-mails é impossível e antiético. O
profissional que monitora essas mensagens sequer sabe de quem ela é. Ele apenas
a encaminha para uma área de inspeção, que avalia o seu conteúdo.", explica.
Na Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), a preocupação com a segurança da
informação está diretamente relacionada ao modelo de governança da empresa, de
acordo com Adriana Peixoto Ferreira, diretora do departamento de tecnologia da
informação da CVRD. Ela revela que a companhia ataca diferentes alvos quando a
questão é a segurança da informação. "De acordo com o modelo de governança da
Vale, temos um plano de segurança que engloba desde a contingência dos dados da
companhia até o monitoramento do correio eletrônico e inibições a ações
ilegais", afirma a diretora.
A CVRD estabelece políticas determinando aquilo que pode e o que não pode ser
feito com os equipamentos da empresa. Segundo Adriana, "todos os funcionários da
Vale assinam um termo assumindo que sabem o que é permitido fazer com as
ferramentas da empresa".
Quem é o dono de quem
Visando preservar os dados críticos para o seu negócio, a companhia ainda adota
o conceito de donos da informação. Cada um determina quem tem autorização para
ver a sua informação. Antes de dar o caminho para um determinado documento, é
preciso consultar o dono da informação.
"Há uma série de processos dando suporte a esta política", afirma Adriana. Ela
explica que um help desk dispara o procedimento para dar acesso a determinadas
informações. De acordo com a diretora, desde os sistemas de transações, até as
informações gravadas nos servidores passam por esse processo. A advogada Thaís,
do Trevisioli, conta que lá também as alterações em documentos são controladas.
"O acesso é controlado por senhas, bem como a inserção de dados nesses
arquivos", diz.
Gesteira, da PwC, concorda com a eficácia do modelo. "Embora ainda seja uma
prática que vá levar mais tempo para ser adotada em massa, definir o dono da
informação é importante", diz o gerente de segurança, acrescentando que os
documentos devem ser devidamente rotulados como "de uso público", "confidencial"
ou "uso interno".
Ferramentas, políticas e metodologias à parte, o que prevalece nas organizações
atualmente é mesmo o bom senso. Tanto na hora de usar os equipamentos
corporativos quanto na hora de investigar e monitorar o fluxo das informações
trocadas pelos funcionários.
Matéria Fernanda K. Ângelo |