O resultado do trabalho é uma análise do perfil dos desenvolvedores e
usuários de software livre no Brasil, das razões que incentivam ou barram a
adoção desses sistemas no país e do impacto do uso dessa modalidade de programa
na indústria nacional de software.
Giancarlo Stefanuto, coordenador de planejamento e estudos da sociedade
Softex, fala sobre os resultados da pesquisa, traçando um perfil do software
livre no país.
IDG Now! – Qual é a participação do software livre no mercado
brasileiro?
Giancarlo Stefanuto – Embora ainda faltem dados mais completos em relação
à informatização no país como um todo, o que pudemos levantar, em termos
comparativos, é que 3% dos desktops e 15% dos servidores utilizam Linux,
hoje. Esse número pode triplicar até 2008, segundo estimativas de mercado. O
sistema operacional é tomado como referência porque pudemos notar que as
empresas ainda estão no início da mudança de plataforma. Portanto, mesmo com
o uso de aplicações de gerenciamento de rede, banco de dados, produtividade,
servidores de e-mail e browsers, a principal uso de software livre no Brasil
ainda se concentra nos sistemas operacionais. Também é possível notar uma
maior adoção de plataformas abertas na área de infra-estrutura; poucas
empresas optam por levar o software livre até as estações de trabalho dos
funcionários.
IDG Now! – O que leva os usuários a adotarem o software de código
aberto?
Giancarlo Stefanuto – A redução de custos é a principal motivação. Mais
de 65% dos usuários citaram a economia como principal motivo para adotar o
software livre. O desenvolvimento de novas habilidades foi a segunda razão
mais citada e a flexibilidade a terceira. Segurança e estabilidade também
são fortes fatores de motivação.
IDG Now! – E para os desenvolvedores, qual é o principal motivo
para trabalhar com o software livre?
Giancarlo Stefanuto – A principal razão para utilizar o código aberto e
não o modelo proprietário é a possibilidade de desenvolver novas
capacidades, segundo as empresas que criam software. Isso porque o
investimento nos profissionais pode ser muito mais barato, já que ele vai
buscar apoio e informações nas comunidades. Compartilhar conhecimentos e
resolver problemas sem depender do proprietário do sistema também são fortes
razões para que um desenvolvedor opte pelo software livre.
IDG Now! – O que pode impedir uma empresa de adotar o software
livre?
Giancarlo Stefanuto – De uma forma geral, a preocupação com possíveis
implicações jurídicas era o principal impeditivo para a adoção do software
livre nas companhias brasileiras, mas a posicionamento favorável do governo
em relação à questão ajudou a minimizar essa percepção. Uma eventual mudança
de governo e de postura em relação ao software livre pode comprometer o
ritmo de crescimento dessa modalidade.
IDG Now! – De quanto é a economia proporcionada pela plataforma
aberta?
Giancarlo Stefanuto – O grau de economia proporcionado está ligado ao
tamanho da empresa. Grandes companhias mencionaram redução de 2 milhões de
reais a 10 milhões de reais por ano com o uso de software livre, mesmo com
os custos de manutenção e treinamento. Mas isso varia do quão informatizada
é a empresa. A adoção do software livre também é mais apropriada para certas
indústrias. Para algumas companhias, manter o código aberto pode significar
um risco para a concorrência. Quando o sistema é estratégico para o negócio,
revelar sua constituição pode comprometer o diferencial competitivo da
empresa. Já em áreas como governo, educação e saúde o compartilhamento de
modelos de programas pode trazer um beneficio geral.
IDG Now! – E para os desenvolvedores? Quando é vantajoso
trabalhar nesse modelo?
Giancarlo Stefanuto – Para as empresas desenvolvedoras, o modelo de
software livre é viável se a vocação for de serviços. O software de código
aberto não combina com aquela história de vender caixinhas. Já para quem
está apto a oferecer customização, treinamento e serviços o modelo se aplica
melhor.
IDG Now! – Quem desenvolve software livre no Brasil?
Giancarlo Stefanuto – O estudo serviu para derrubar alguns mitos nesse
quesito. Acreditava-se que a grande maioria dos desenvolvedores de software
livre eram hackers, pessoas com tempo livre e sem nenhum compromisso
profissional com o desenvolvimento. O que pudemos constatar é que mais de
50% dos desenvolvedores brasileiros trabalham para empresas privadas, mais
de 10% estão em empresas públicas e apenas 10% se concentram em
universidades. Além disso, mais de 40% têm nível superior de instrução. O
perfil do desenvolvedor brasileiro não deixa nada a desejar para o europeu.
IDG Now! – Qual é a importância do modelo de código aberto para a
indústria de software?
Giancarlo Stefanuto – O formato de desenvolvimento do software livre é uma
revolução sem precedentes na forma de colaboração para criação e
distribuição de tecnologia. Não é possível prever se esse modelo vai
persistir ou vai evoluir para algo diferente, mas trata-se de uma quebra de
paradigma na indústria de software. As comunidades de desenvolvimento
criaram um manancial de tecnologia de ponta que está ao alcance de qualquer
pessoa.