Em
uma iniciativa comemorada pelo setor empresarial, o Brasil vem testando desde
abril deste ano a emissão de notas fiscais eletrônicas (NF-e). O objetivo é
substituir a nota fiscal em papel, simplificando as obrigações dos contribuintes
e permitindo, ao mesmo tempo, o acompanhamento em tempo real das operações
comerciais pelo Fisco.
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“Além de oferecer maior visibilidade do processo às partes envolvidas, o
projeto permite reduzir os custos das empresas com papel, agilizar o processo e
reduzir fraudes”, define Donizetti Victor Rodrigues, coordenador de tecnologia
da informação da Receita Federal.
Na
primeira fase do projeto, que estreou em abril, 19 empresas começaram emitir
notas fiscais eletrônicas, autorizadas por seis Secretarias de Fazenda (Bahia,
São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Goiás e Maranhão). Até o mês de
agosto, as empresas mantiveram a emissão simultânea no modelo eletrônico e
físico. A partir de setembro cinco empresas - Wickbold, Souza Cruz, Volkswagen,
Telefônica e Eletropaulo - começam a emitir apenas a NF-e.
Na prática, a empresa emissora de nota fiscal eletrônica gera um arquivo
eletrônico contendo as informações fiscais da operação comercial (no formato XML),
que deve ser assinado digitalmente, garantindo a integridade dos dados e a
autoria do emissor. Este arquivo eletrônico é então transmitido via internet à
Secretaria da Fazenda de jurisdição do contribuinte, que fará uma pré-validação
e devolverá um protocolo de recebimento à empresa, sem o qual a mercadoria não
pode ser transportada.
O documento eletrônico também será transmitido à Receita Federal, que será o
repositório nacional de todas as NF-e emitidas e, no caso de operações
interestaduais, para a Secretaria de Fazenda de destino da operação e Suframa
(para mercadorias destinadas às áreas incentivadas).
Em posse da chave de acesso, o destinatário poderá consultar o documento
eletrônico. Será emitida, em papel, uma representação gráfica simplificada da
Nota Fiscal Eletrônica, o chamado DANFE (Documento Auxiliar da Nota Fiscal
Eletrônica), que conterá impressa, em destaque, a chave de acesso para consulta
da NF-e na internet e um código de barras bidimensional que facilitará a captura
e a confirmação de informações da NF-e pelas unidades fiscais.
Segundo Rodrigues, a Receita ainda não definiu a partir de quando qualquer
empresa interessada poderá ingressar no programa, mas a “expectativa” é de que
até o final do ano ao programa seja ampliado para outros Estados e companhias.
Segundo a
Associação Brasileira de E-business (Ebusiness Brasil), aproximadamente 80%
das 224 empresas ouvidas em uma pesquisa sobre o projeto têm interesse em
implantar o modelo eletrônico de emissão de notas fiscais no curto e no médio
prazo. Dessas, 26,5% estão apenas aguardando a permissão do governo para
iniciarem seus projetos.
Quem já adotou
Os participantes do piloto revelam entusiasmo em relação aos primeiros
resultados. “Os principais ganhos são agilidade e confiabilidade nos processos,
melhor controle dos documentos, e oportunidade de economia”, relata Victor Kodja,
diretor de gestão comercial da Eletropaulo, que vem enviando uma média diária de
270 mil faturas de serviços à Sefaz, em São Paulo.
A adoção da nota fiscal eletrônica é um passo para que a companhia passe a
emitir faturas eletrônicas - inicialmente para clientes corporativos, a partir
de setembro, e posteriormente, já a partir de 2007, inclusive para os clientes
residenciais. “Fizemos um levantamento junto aos nossos grandes clientes, cerca
de 12 mil, e 70% se interessam em receber tudo eletronicamente”, conta Kodja.
Segundo o diretor da companhia de energia elétrica, mesmo junto aos usuários
finais o potencial de adesão às faturas eletrônicas é grande. “Cerca de 23% dos
nossos clientes, o que corresponde a 1,3 milhão de usuários, utilizam o débito
automático. Deste total, mais de 73% teriam a possibilidade de acessar suas
faturas eletronicamente”, revela.
O investimento da companhia no desenvolvimento da interface de comunicação
com o Fisco foi modesto - aproximadamente 200 mil reais - e o desenvolvimento
foi realizado dentro da própria companhia. O processo de prestação de contas à
Secretaria da Fazenda, que era mensal, passou a ser diário. “Todas as noites, as
faturas são geradas no mesmo sistema que utilizávamos, convertidas no formato
exigido pela Receita e enviadas automaticamente”, detalha Kodja.
A
Eurofarma, outra participante do piloto, estima que vai obter uma economia
de 25 mil reais por mês com aquisição de papel, impressão e armazenamento de
documentos fiscais. Assim, espera obter o retorno do investimento no projeto em
12 e 18 meses. A a companhia adquiriu a solução de NF-e da Neoris, chamada Flow,
que integra também a solução de segurança da True Access, responsável pela
emissão, conferência e armazenamento dos certificados eletrônicos.
O produto da Neoris foi desenvolvido tanto para integração com servidores de
aplicação SAP como também com outros ERPs do mercado, e é uma das alternativas
para as empresas que não querem ou não têm recursos para criar a ferramenta de
integração com o Fisco internamente.
Projeções
Durante o 12º Congresso de Informática e Inovação na Gestão Pública (Conip), que
ocorreu no final de julho, foi divulgado pelo Grupo Gestor da Nota Fiscal
Eletrônica que o Estado de São Paulo deverá registrar, até 2009,
60 milhões de notas fiscais eletrônicas emitidas por mês, o dobro do
previsto para o ano de 2008, no qual a expectativa é de que 30 milhões de
documentos eletrônicos sejam emitidos por mês no território paulista.
Segundo Leonardo Humberto Bucher, diretor executivo da Federação Nacional das
Empresas de Informática e Similares (Fenainfo), o projeto da NF-e deve ganhar
ampla adesão a partir do próximo ano.
“É um projeto que vai diminuir as malfadadas obrigações acessórias das
empresas neste País”, opina. Para ele, além de possibilitar a já citada redução
de custos, a iniciativa não exigirá grandes investimentos das companhias. “As
empresas responsáveis por 90% da atividade econômica brasileira já estão
informatizadas”, observa.
Para Rodrigues, da Receita, a adoção da nota fiscal eletrônica pelas grandes
empresas pressionará o uso dentro da sua cadeia de fornecimento. “A opção pelo
documento eletrônico é voluntária, mas com o tempo vai se tornar quase uma
obrigação, não pela lei, mas pelo mercado”, avalia o coordenador.
Embora acreditem que não será possível trabalhar neste modelo com todos os seus
clientes, 97% das empresas acham possível receber a nota fiscal eletrônica de
seus fornecedores, segundo a pesquisa da Ebusiness Brasil.
Neste processo de migração, oportunidades não devem faltar aos fornecedores de
soluções de armazenamento - que substituirão os arquivos de papel - e de
gerenciamento eletrônico de documentos. O mesmo vale para as empresas capazes de
prover soluções prontas ou customizáveis para gerar, a partir dos sistemas
financeiros e comercias das empresas, os documentos no formato exigido pelo
Fisco.
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