Em um artigo recente,
Ryan Cartwright afirmou que o software livre não está jogando o "mesmo
jogo" do software proprietário. Ele tem razão, mas então eu pergunto:
que jogo o GNU/Linux está jogando?
Trinta anos de mentalidade proprietária nos condicionaram a pensar que o marketshare,
a participação no mercado, é fundamental para medir o sucesso, e
acabamos nos convencendo de que é preciso "vencer" o Windows para
triunfarmos. Mas isso não é verdade. O GNU/Linux pode ser um grande
sucesso mesmo sem nunca alcançar mais de 1% de base instalada no mundo.
O motivo é a diferença entre "poder" e "liberdade".
A medida da liberdade
"Sucesso" tem um significado muito diferente quando seu objetivo é a
liberdade, e não o poder. As empresas proprietárias existem para fazer
dinheiro, e por isso, ter poder no mercado — que se traduz na
capacidade de cobrar tributos (como as licenças do Windows pagas à
Microsoft) — é para elas a definição essencial do sucesso. Mas para o
software livre, o objetivo é oferecer a liberdade de escolher
e usar o software livre (o sistema operacional GNU/Linux e seu universo
de aplicativos associados). Aos que buscam criar liberdade, esse tipo
de tributo monetário é uma bela forma de incentivo, mas não é essencial
para o sucesso.
A liberdade não pode ser imposta às pessoas. A liberdade de escolher
o GNU/Linux também significa a liberdade de escolher o Windows. Pode-se
dizer que é um mau negócio, mas não temos o direito de forçar os outros
a escolherem um dos dois, nem devemos fazer julgamentos de valores
baseados nas escolhas de cada um: não sabemos qual é a base de suas
decisões, nem podemos afirmar que sabemos o que é melhor para eles. Em
suma, não precisamos ter poder sobre eles! Na verdade, almejar o poder acaba atrapalhando nosso objetivo de criar um ecossistema de software mais livre.
A medida mais importante do "sucesso" do software livre é quando os
usuários que querem usá-lo sentem-se livres para fazê-lo (créditos:
Andy Davison / CC-By-SA 2.0)
Sendo assim, não temos a obrigação ou a necessidade de erradicar o
Windows do mercado, nem de conquistar participação no mercado. É por
isso que nós não somos uma enorme corporação multinacional
que precisa exercer poder sobre as pessoas para sobreviver.
Marketshare: definido como a venda de serviços ou como o número total
de instalações, é uma boa indicação do sucesso do GNU/Linux, mas não é
de forma alguma essencial ao seu objetivo: a liberdade.
Auto-suficiência
Para se alcançar a liberdade, é fundamental oferecer meios
de se obter auto-suficiência. Quando os indivíduos são capazes de
resolver suas necessidades por conta própria, sem jogar a
responsabilidade para terceiros, eles são mais livres.
O GNU/Linux oferece auto-suficiência na forma de software sobre o
qual você tem o controle completo. Ao invés de ter que pagar um tributo
a um fornecedor corporativo para receber benefícios dele, você mesmo
pode satisfazer suas necessidades usando produtos disponíveis
livremente. Na prática, obviamente, você não precisa fazer tudo por
conta própria: o processo se dá pelas redes de compartilhamento voluntário
(ou "comunidade"), compostas de usuários e desenvolvedores do código
aberto. Porém, você não é de forma alguma obrigado a participar dessa
comunidade, e obviamente podem haver outras comunidades se uma só não
for suficientemente global — um exemplo simples: há muitos grupos de
usuários Linux divididos geograficamente ou por idioma.
O que importa: compartilhamento e padrões
E o que faz de você livre para escolher o software livre? Em essência, são necessárias qualidade e estabilidade. Há ainda a questão delicada dos padrões de interoperabilidade. Para explicar esses critérios, vamos considerar os motivos pelos quais você pode não ser capaz de usar software livre em um trabalho:
-
O software trava devido a bugs (qualidade)
-
O software está defasado (estabilidade)
-
Os arquivos não abrem (padrões de dados)
Os dois primeiros problemas não têm nada a ver com a participação no
mercado dos programas de software livre, mas sim com o nível de
atividade do desenvolvimento do software: em quantas plataformas e
configurações diferentes o software foi testado, quantas pessoas estão
caçando bugs e quanto tempo é dedicado a eliminar os bugs encontrados?
Essa foto do Linux Kernel Summit 2006 tem 73 pessoas. A
estabilidade e a qualidade do kernel do Linux depende dos fatores que
permitem a essas pessoas compartilharem seu tempo visando a melhoria do
kernel. A participação no mercado de consumo é apenas um desses
fatores, e não é o mais importante
Isso tudo não tem a ver com a porcentagem de pessoas
que fazem uso do software no mercado, mas com o número absoluto de
pessoas desenvolvendo e testando o programa. Em outras palavras, um
programa de nicho usado por menos de 1% do público, mas que possua um
grupo forte e motivado de desenvolvedores e usuários, pode ser mais
bem-sucedido que um pacote usado por 99% da população, mas que tenha
poucos interessados em mantê-lo funcionando (é claro que que é pouco
provável que um programa tão popular não tenha usuários dedicados, mas
isso não implica dizer que as duas coisas estejam diretamente
associadas).
Em outras palavras, o que importa são as pessoas que compartilham seu tempo para trabalhar no projeto. E isso é possível graças à natureza da licença, que permite que o software em si seja compartilhado. Ou seja, a força que dá qualidade e estabilidade ao software livre vem do compartilhamento
dos esforços da comunidade e do compartilhamento do software em si.
Sendo assim, a participação no mercado tem um impacto limitado no
software livre. A principal exceção é quando uma empresa que faz muito
dinheiro com o produto decide compartilhar o tempo de seus
desenvolvedores para que trabalhem com o software livre. Porém, mais
uma vez, não há uma associação direta: uma empresa é livre para
participar gratuitamente ou contribuir independentemente dos lucros que
obtém com o software.
Então, por que as pessoas usam a participação no mercado como se
fosse a medida de mais absoluta importância? Porque, para o software
proprietário, ela é: Se apenas 1% da população compra licenças do
software A, mas 99% compram licenças do software B, então B tem 99
vezes mais dinheiro para pagar aos desenvolvedores. E isso é muito
importante para os projetos de desenvolvimento proprietários, porque eles não compartilham.
Ao não compartilhar o código, eles não apenas desestimulam como também
dificultam (ou mesmo impossibilitam) o compartilhamento. Sendo assim, todo o tempo de desenvolvimento e de testes do software proprietário deve ser pago.
É por isso que a disponibilidade de fundos, totalmente guiada pela
participação no mercado, é quem determina a qualidade e a estabilidade
do software proprietário. É por isso que faz sentido para os
desenvolvedores de software proprietário usar a participação no mercado
como forma de propaganda.
Mas essas regras não se aplicam ao software livre — ele depende do
compartilhamento voluntário para alcançar os mesmos objetivos, e isso
acaba sendo bem mais econômico.
O terceiro item, padrões de dados, tem uma ligação
com a participação no mercado, embora tênue. Se um único fornecedor
assume o controle monopolista sobre o mercado, ele também pode
monopolizar os formatos de dados usados para as comunicações. Por
exemplo, a Microsoft já teve o domínio total do mercado de
processadores de texto. Nessa época, um formato de dados proprietário —
o formato DOC, do Word — se tornou o padrão de fato. Como o
formato era secreto e apenas o Word oferecia suporte total a ele, isso
criou um obstáculo para os que queriam usar software livre. Algo
parecido ocorre com os vários formatos de arquivo de criptografia DRM e
com codecs de vídeo usados atualmente.
Evitando os monopólios
Esses são ataques abertamente hostis à liberdade de mercado
engendrados por essas empresas. Elas são, como diz a lei,
"anti-competitivas", porque põe o competidor em uma desvantagem
injusta. Isso cria uma situação na qual a qualidade não é suficiente
para permitir que um produto seja usado. E não é só o software livre
que passa por esse problema! Ele atinge a todos os softwares
concorrentes.
Sendo assim, para promover tanto a liberdade quanto a
eficiência do mercado, tais táticas, sejam elas intencionais ou não,
devem ser proibidas. Isso pode ser feito por meios legais,
principalmente não concedendo direitos autorais monopolistas
nem proteção a segredos comerciais a tais padrões. Também podem ser
organizados movimentos sociais para o uso de padrões livres.
Finalmente, ter mais de um competidor efetivo no mercado levará as
forças naturais do mercado a encorajarem o uso de formatos abertos.
O que realmente importa na participação no mercado é que não há
monopólio forte o suficiente que possa controlar efetivamente o mercado
(créditos: Robert Jorgenson / CC-By-SA 2.0)
Porém, mesmo nesse ponto, o marketshare só importa devido à
necessidade de evitar o monopólio extremo: não que o GNU/Linux precise
de 50% ou 90% de participação no mercado para ser um "sucesso", o que é
nocivo é permitir que um único software (Microsoft Windows) tenha uma
participação de 90% ou 99%. Uma fatia de 10% a 15% do mercado já seria
mais do que suficiente. E o mais importante é que esses 10% ou 15% não
precisam pertencer ao GNU/Linux — o que importa é que não pertençam à
Microsoft (ou a um único fornecedor). Não vemos problema algum no fato
do OS X da Apple, do Free BSD ou de qualquer outro sistema operacional
conquistar essa participação no mercado, desde que essa participação
seja independente do controle da Microsoft.
O sucesso do software livre é ter liberdade para usá-lo
É uma situação bem diferente da que se apresenta no software
proprietário, em que o "sucesso" é diretamente proporcional à
participação no mercado (ou ao tamanho absoluto do mercado). No fim das
contas, a causa da liberdade não precisa de uma grande
participação no mercado. Só precisamos de um mercado livre e de
compartilhamento suficiente para que o software seja desenvolvido.
Claro que a liberdade pode não ser o objetivo de todos que
usam software livre. Alguns podem almejar a dominação do mercado, e há
empresas como o Ubuntu que se beneficiariam de uma maior adoção do
GNU/Linux. O sucesso financeiro delas, em qualquer nível, é benéfico ao
sucesso geral do GNU/Linux, porque significa que mais dinheiro será
gasto no seu desenvolvimento. Mas ainda que essas empresas vão à
falência, o GNU/Linux permanecerá: o desenvolvimento vai continuar,
haja ou não apoio financeiro das vendas de serviços, desde que haja um
grupo suficiente de pessoas que precisem do software a ponto de
compartilhar seu tempo para mantê-lo funcionando e adicionando novas
capacidades.